Chás calmantes: veja 5 ervas com essas propriedades

A rotina acelerada e a sobrecarga contínua de informações transformaram o estresse e a ansiedade em presenças quase constantes no dia a dia moderno. Na tentativa de encontrar um contraponto a esse ritmo frenético, milhares de pessoas têm resgatado o hábito ancestral de preparar chás calmantes antes de dormir.

E a medicina moderna tem se debruçado sobre a bioquímica dessas ervas para entender o seu real impacto neurológico. A constatação é clara: a natureza possui ferramentas químicas poderosas para intervir na nossa saúde mental.

Para decifrar quais infusões realmente entregam resultados baseados em evidências, a CNN Brasil conversou com a médica Inácia Simões, especialista em Anestesiologia e Dor pelo Centro Clínico Saint Moritz.

Ela explica que a tradição encontra forte respaldo na ciência atual. “Com base na literatura médica, cinco exemplos de chás com propriedades calmantes incluem camomila, valeriana, maracujá (passiflora), lavanda e erva-cidreira (melissa)”, afirma a médica.

Esses fitoterápicos não atuam por efeito placebo; segundo a especialista, “estes chás demonstram efeitos ansiolíticos e sedativos em estudos clínicos, com mecanismos de ação que envolvem principalmente a modulação do sistema GABAérgico”.

A química do relaxamento e o poder do GABA

Para compreender como uma simples xícara atua no cérebro, é preciso olhar para os neurotransmissores. A ansiedade ocorre, em grande parte, devido a uma hiperatividade das redes neuronais.

Segundo a especialista, a maioria destas ervas fitoterápicas atua por meio da modulação do sistema GABAérgico, que é exatamente o mesmo alvo dos ansiolíticos farmacêuticos convencionais. A grande vantagem, no entanto, está no perfil do tratamento natural, que oferece esse relaxamento com menos efeitos adversos cognitivos e menor risco de sintomas de abstinência.

A médica destaca que a atuação dessas plantas no organismo é sistêmica e complexa. Mecanismos adicionais incluem a modulação de vias monoaminérgicas e serotoninérgicas, a regulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e importantes efeitos anti-inflamatórios.

O top 5 das ervas com ação neurológica comprovada

A literatura médica destrincha o comportamento clínico de cada uma dessas cinco ervas, revelando que cada planta possui especialidades e características próprias no combate ao estresse e à insônia.

  • Camomila (Matricaria recutita): uma das plantas mais populares do mundo, a camomila possui notáveis efeitos ansiolíticos, sedativos e antinociceptivos (capazes de inibir a percepção da dor). A sua eficácia é explicada pela modulação GABAérgica e pela inibição da enzima FAAH, que é a metabolizadora de endocanabinoides. Ela também contém glucuronoxilano, um composto com ação direta no sistema nervoso central. A sua eficácia foi demonstrada em revisões sistemáticas e meta-análises de ensaios clínicos randomizados, embora a literatura aponte para um alto risco de viés nesses estudos.
  • Valeriana (Valeriana officinalis): conhecida pelo seu aroma forte, essa raiz foca nos efeitos sedativos e ansiolíticos por meio da modulação direta de receptores GABA-A e da sua ação no sistema GABAérgico. Apesar de as evidências serem consideradas inconclusivas devido ao baixo número de estudos robustos, a planta foi identificada clinicamente como uma das que apresentam o maior potencial para o tratamento da insônia relacionada à ansiedade.
  • Maracujá / Passiflora (Passiflora incarnata): as folhas dessa planta tropical entregam efeitos ansiolíticos e sedativos clássicos via modulação GABAérgica. A médica Inácia ressalta que existem evidências promissoras em redes de meta-análise, apontando que as combinações com valeriana mostram melhores resultados, alcançando uma eficácia comparável a tratamentos convencionais.
  • Lavanda (Lavandula angustifolia): mais do que um aliado da aromaterapia, a ingestão da lavanda traz efeitos ansiolíticos e benefícios diretos para a depressão e a insônia, também por meio da modulação GABAérgica. Atualmente, ela possui a melhor evidência disponível entre os fitoterápicos, com eficácia comparável a tratamentos de primeira linha. Uma forma patenteada da erva, conhecida como Silexan, demonstra redução significativa nos escores de ansiedade.
  • Erva-cidreira / Melissa (Melissa officinalis): trazendo efeitos ansiolíticos e calmantes fundamentados na modulação GABAérgica, a melissa é considerada possivelmente segura e possivelmente eficaz. Evidências oriundas de ensaios clínicos apoiam fortemente o seu uso em pacientes diagnosticados com transtornos de ansiedade.

O mito do “natural não faz mal”: segurança e riscos

Existe uma crença popular de que produtos naturais são isentos de efeitos colaterais, o que é um grande erro médico. Embora todos os chás mencionados apresentem perfis de segurança favoráveis quando comparados a medicamentos convencionais, precauções são essenciais.

A especialista adverte sobre as particularidades de cada substância. Enquanto a camomila e a lavanda são geralmente bem toleradas, com efeitos adversos mínimos, outras plantas exigem atenção. “A valeriana pode causar cefaleia e efeitos gastrointestinais, com rara hepatotoxicidade”, alerta.

O uso do maracujá pode causar sedação indesejada e, em doses elevadas, levar à ataxia (perda de coordenação) e à depressão do sistema nervoso central. Já a lavanda exige cautela em interações medicamentosas, pois pode aumentar os efeitos sedativos de narcóticos ou de outros sedativos farmacêuticos.

A ciência ainda em construção

Apesar do amplo uso histórico, a consolidação dessas ervas na medicina formal ainda enfrenta barreiras acadêmicas. A Dra. Inácia lembra que as evidências possuem limitações claras. Embora os resultados sejam muito promissores, muitos estudos apresentam um pequeno número de participantes e alto risco de erros.

“A medicina requer que sejam conduzidos ensaios clínicos maiores e com desenho metodológico adequado para que se estabeleçam recomendações definitivas e padronizadas. Além disso, a eficácia na prática clínica pode depender drasticamente da duração do tratamento, do tipo de paciente, da via de administração escolhida e do método de preparação da infusão”, finaliza.

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Fonte: cnnbrasil.com.br

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