Entenda como a China se prepara para receber Trump que se reunirá com Xi

Na noite desta quarta-feira (13), manhã de quinta-feira (14) na China, o presidente chinês, Xi Jinping, descerá os 39 degraus cobertos por um tapete vermelho em frente ao Grande Salão do Povo, um marco político no coração da capital chinesa.

Cada passo é cronometrado para que ele passe por altos funcionários das delegações chinesa e americana, chegando a um ponto discreto no tapete vermelho segundos após a chegada de seu convidado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No momento certo, a música cerimonial começa.

Esse nível de planejamento preciso, segundo a segundo, demonstrado durante a primeira visita de Trump a Pequim em 2017, será exibido novamente, com a expectativa de que o presidente americano visite o Templo do Céu, um antigo local de culto onde imperadores oravam por boas colheitas, e Zhongnanhai, a secreta sede do Partido Comunista Chinês – sobre a qual pouco se revela publicamente.

“Os chineses são muito, muito meticulosos. Eles querem planejar tudo com muita precisão”, afirmou William Klein, um diplomata americano aposentado que ajudou a organizar a visita de Trump em 2017 e agora é sócio sênior da consultoria de comunicação estratégica FGS Global.

Conversar com um presidente tão imprevisível quanto Trump representa um enorme desafio logístico para pessoas obcecadas por precisão; diplomatas precisam apenas observar o recente encontro do líder americano com sua homóloga japonesa, no qual ele fez piada sobre o ataque japonês a Pearl Harbor durante a Segunda Guerra Mundial.

“Acho que a espontaneidade será o que o presidente disser durante as reuniões e não há como controlar isso”, disse Sarah Beran, ex-diplomata sênior dos EUA que também ajudou a organizar a visita anterior de Trump à China em 2017 e o encontro de Xi com Biden em 2023.

 

Beran previu que Pequim limitaria o acesso da mídia para evitar que quaisquer declarações improvisadas fossem amplamente divulgadas.

Nos bastidores, funcionários de escalões inferiores e superiores dos dois países têm trabalhado há meses para elaborar resultados concretos e refinar as mensagens políticas.

Do lado chinês, nada é deixado ao acaso; nada pode dar errado – especialmente durante os eventos públicos meticulosamente planejados.

O objetivo final das autoridades chinesas é apresentar seu líder da melhor maneira possível, ao mesmo tempo que fazem com que seu convidado se sinta devidamente respeitado.

Durante a visita anterior de Trump, em 2017, ele foi homenageado com um tour privado excepcionalmente raro pela Cidade Proibida, apresentações culturais – incluindo uma apresentação de ópera de Pequim – e uma cerimônia de boas-vindas com dezenas de crianças animadas.

Desta vez, a própria presença de Trump na China em um momento de turbulência global – criada por sua decisão de lançar ataques contra o Irã – já representa uma vitória para Pequim.

“Ter Trump aqui e a possibilidade dos dois líderes se encontrarem pessoalmente já são uma conquista significativa e um sucesso”, avaliou uma fonte chinesa familiarizada com o assunto.


O presidente dos EUA, Donald Trump, se reúne com o presidente chinês, Xi Jinping, à margem da cúpula da APEC, em Busan 30 de outubro de 2025 • Evelyn Hockstein/REUTERS

“Sempre um espetáculo incrível”

O cenário político global mudou drasticamente desde 2017, quando Pequim organizou uma visita “de Estado plus” especialmente planejada para Trump.

“Cada detalhe refletia um trabalho artesanal e uma preparação meticulosos” para criar uma atmosfera acolhedora e “dissipar suspeitas, construir confiança e encorajar Washington a levar os interesses da China em maior consideração ao formular políticas”, noticiou a mídia estatal chinesa na época.

Xi mostrou pessoalmente a Cidade Proibida a Trump, fechando o vasto complexo palaciano ao público, para que Trump e a primeira-dama Melania pudessem assistir a uma apresentação privada de ópera de Pequim e admirar o trabalho de restauração que estava sendo realizado no Patrimônio Mundial da UNESCO.

Mais tarde, ele ofereceu um banquete suntuoso ao americano, tornando-o o primeiro líder estrangeiro a jantar dentro da Cidade Proibida desde a fundação da China moderna.

Os guardas de honra do Exército de Libertação Popular, incluindo membros do Exército, da Marinha e da Força Aérea, passaram por rigorosas etapas de seleção e treinamento intenso para serem escolhidos para a recepção de Trump na Praça Tiananmen.

Os guardas homens tinham cerca de 188 cm de altura e as guardas mulheres, em média, 175 cm.

Dezenas de crianças que frequentavam escolas próximas, incluindo 10 filhos de expatriados americanos, também foram selecionadas para recepcionar o “Vovô Trump”, para que ele pudesse sentir o calor de casa e a sinceridade da amizade chinesa, segundo relatos da mídia estatal na época.

“Quando a visita acontece na China, o governo chinês planeja visitas de Estado melhor do que qualquer outro lugar que eu já tenha visto. É sempre uma refeição incrível. Há entretenimento, então a China é uma anfitriã excelente para essas visitas oficiais, no sentido de que eles simplesmente oferecem um espetáculo realmente incrível”, disse Beran, agora sócio da consultoria global Macro Advisory Partners.

Desta vez, apesar das renovadas tensões comerciais e da guerra em curso com o Irã, Pequim fez gestos diplomáticos amistosos antes da visita de Trump.

No final de abril, anunciou que enviaria um casal de pandas-gigantes adoráveis ​​para o Zoológico de Atlanta. Os nomes dos pandas — Ping Ping e Fu Shuang — significam paz e dupla fortuna em chinês, respectivamente.

A China também aprovou a exibição de dois filmes de Hollywood, “O Diabo Veste Prada 2” e “Michael”, uma cinebiografia do astro americano Michael Jackson, nos cinemas durante o feriado da Semana Dourada, em maio.

Os cobiçados horários de exibição durante o feriado geralmente são reservados apenas para filmes produzidos internamente, então a aprovação da exibição de dois filmes imersos na cultura americana foi vista como um gesto para fortalecer os laços entre EUA e China além das relações governamentais.

Atmosfera tensa

Quase uma década se passou desde a última visita de Trump a Pequim, e embora o número de degraus na escadaria do Grande Salão permaneça o mesmo, Pequim agora está mais preparada para receber o líder americano.

Após uma década de rivalidade crescente, Pequim chega a este encontro com sua própria estratégia, que inclui um amplo esforço em prol da autossuficiência econômica e um conjunto de ferramentas mais robusto para lidar com as sanções estrangeiras contra empresas chinesas.

Pequim quer usar a cúpula de líderes para mostrar ao mundo que consegue administrar um bom relacionamento com Trump e pavimentar o caminho para laços mais estáveis ​​com os EUA sob o governo de seu eventual sucessor.

Espera-se que Xi Jinping tenha uma presença marcante como anfitrião, em contraste com um presidente americano conhecido por se guiar mais pela intuição do que por um planejamento meticuloso.

Autoridades chinesas certamente realizaram uma quantidade extraordinária de pesquisas para se prepararem para quaisquer manobras inesperadas da equipe americana.

“(Os funcionários chineses) sentem-se muito desconfortáveis ​​com ambiguidade ou surpresas. Eles não querem que seus líderes sejam surpreendidos por assuntos ou perguntas que não foram previamente informados”, explicou Klein.

“Por esse motivo, eles tentam definir, junto com a outra parte, a agenda exata, os tópicos exatos que serão abordados e, muitas vezes, pressionam fortemente para que certos assuntos nem sequer sejam mencionados. Eles não querem falar sobre eles”, acrescentou ele.

Fonte: cnnbrasil.com.br

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