Mergulhadores especializados buscam corpos de turistas no mar das Maldivas

Mergulhadores internacionais de cavernas chegaram às Maldivas para intensificar a busca pelos restos mortais de quatro italianos que morreram enquanto mergulhavam na ilha paradisíaca, um dia depois de um oficial militar ter morrido nas operações de resgate.

Três mergulhadores finlandeses da Divers Alert Network (DAN), um grupo global de segurança de mergulho, pousaram nas Maldivas neste domingo (17) e iriam se encontrar com a equipe da guarda costeira local para trabalhar em uma nova estratégia para completar a missão, disse o principal porta-voz do governo das Maldivas, Mohamed Hussain Shareef.

“Eles foram recomendados pela Itália e realizaram mergulhos profundos e em cavernas em todo o mundo”, disse Shareef à CNN.

Laura Marroni, vice-presidente da Fundação DAN Europa e uma das coordenadoras da missão, disse à emissora estatal italiana RAI neste domingo que os mergulhadores finlandeses são especialistas em “operações de resgate em ambientes obstruídos”.

“A Finlândia é um país famoso por ter muitos sistemas subaquáticos, como minas inundadas e outras cavernas, algumas das quais são muito profundas”, disse Marroni.

Espera-se que um quarto especialista em mergulho se junte à equipe finlandesa, assim como equipamentos especializados da Austrália e do Reino Unido.

Cinco mergulhadores italianos morreram depois de explorar o Atol de Vaavu na quinta-feira (14), o que motivou a missão de recuperação. Eles estavam em uma expedição de mergulho com outros 20 cidadãos italianos, a bordo do navio Duke of York, segundo o Ministério das Relações Exteriores da Itália.

O corpo do instrutor de mergulho Gianluca Benedetti foi encontrado na entrada da caverna, levando as autoridades a acreditar que os outros quatro permanecem lá dentro, disse Shareef.

São eles Monica Montefalcone, professora associada de ecologia da Universidade de Gênova; sua filha Giorgia Sommacal; o biólogo marinho Federico Gualtieri; e a pesquisadora Muriel Oddenino.

A tentativa de recuperar os seus corpos evidenciou o perigo e a complexidade da operação: o mergulhador militar sênior, sargento Mohamed Mahudhee, de 43 anos, morreu no sábado (16) durante uma segunda missão de recuperação na caverna, que em seu ponto mais profundo fica a 70 metros abaixo da superfície, quase a profundidade de um prédio de 20 andares.

“Ele era um dos mergulhadores mais experientes, o que mostra o quão desafiador é este mergulho”, disse Shareef.

“Ele estava mergulhando em dupla, conforme o protocolo, e voltando à superfície quando seu parceiro percebeu que algo estava errado e o resto da equipe saltou para tentar salvá-lo.”

Mahudhee foi sepultado com todas as honras militares em uma cerimônia fúnebre na capital das Maldivas, Malé, onde milhares de pessoas prestaram as suas homenagens, incluindo o presidente Mohamed Muizzu, funcionários do turismo e militares e embaixadores estrangeiros.

Condições desafiadoras

Cada mergulho de resgate é limitado a cerca de três horas devido aos requisitos de oxigênio e descompressão, disse Shareef.

Durante a operação de recuperação de sábado, dois mergulhadores marcaram a entrada da caverna lançando um balão até a superfície da água. Isso permitiu que a tripulação restante nadasse diretamente em direção a ele e maximizasse seu tempo lá dentro.

No entanto, as condições são extremamente desafiadoras, com fortes correntes imprevisíveis, passagens estreitas que levam a uma vasta câmara e escuridão total, disse Shareef.

“É preciso ser um especialista neste nível de mergulho”, acrescentou.

Antes de voltar à superfície, os mergulhadores devem permanecer em águas rasas para descomprimir após subirem das profundezas da caverna.

As autoridades acreditam que Mahudhee, um membro das forças de defesa nacional, morreu devido a complicações durante o processo.

As Maldivas têm extensos protocolos de segurança aquática e mergulhadores especializados, disse Shareef, observando que o território oceânico do arquipélago é cerca de 3.000 vezes maior do que a sua massa terrestre.

Carlo Sommacal, marido de Montefalcone e pai de Giorgia, não tinha certeza do que poderia ter causado o acidente, dizendo que “alguma coisa deve ter acontecido lá embaixo”, dada a vasta experiência de sua esposa e filha.

John Volanthen, oficial de mergulho do Conselho Britânico de Resgate em Cavernas, que desempenhou um papel fundamental no resgate do time de futebol juvenil tailandês em 2018, disse que não se sabe se as correntes tiveram algum papel no caso, mas que a profundidade e o lodo da caverna são o que está “inquestionavelmente dificultando” os esforços de recuperação.

“É essencialmente um caminho muito longo para dentro da caverna e normalmente, os mergulhadores estabeleceriam uma orientação para encontrar o caminho para dentro da caverna. E foi potencialmente isso que aconteceu com a pessoa desaparecida”, disse ele à CNN.

O pânico também pode afetar os mergulhadores, disse Volanthen, com os riscos aumentando em mergulhos mais profundos devido à narcose – um estado intoxicante temporário causado pela respiração de ar comprimido.

Questionamentos sobre a legalidade do mergulho

Uma investigação está em andamento para apurar o que aconteceu com os mergulhadores – e como todos chegaram a tais profundidades.

“Para mergulho recreativo e comercial, por lei, ninguém está autorizado a ir além de 30 metros e, infelizmente, isso parece ter acontecido muito mais fundo porque até a boca da caverna está quase 50 metros abaixo”, disse Shareef.

A licença do navio foi suspensa enquanto se aguarda o resultado da investigação, segundo o porta-voz do governo.

A agência turística italiana responsável pela viagem de mergulho nas Maldivas negou ter autorizado ou ter conhecimento do mergulho profundo que violava os limites locais, disse a advogada da operadora ao diário italiano Corriere della Sera no sábado.

Orietta Stella, representando a Albatros Top Boat, disse que a operadora “não sabia” que o grupo planejava descer além dos 30 metros. Ultrapassar esse limite requer permissão especial das autoridades marítimas das Maldivas e a agência  “nunca teria permitido isso”, disse ela.

As vítimas eram mergulhadores experientes, mas o equipamento utilizado parecia ser equipamento recreativo padrão, em vez de equipamento técnico adequado para mergulho em cavernas profundas, disse ela.

Ela também esclareceu que a Albatros apenas comercializava o cruzeiro e não era proprietária da embarcação nem empregava a tripulação, que era contratada localmente.

A CNN entrou em contato com Albatros Top Boat para comentar.

A Universidade de Gênova prestou homenagem aos quatro mergulhadores desaparecidos, que estudaram ou lecionaram na instituição.

“A solidariedade de toda a comunidade universitária vai para os familiares, colegas e estudantes que partilharam o seu percurso humano e profissional”, afirmou a universidade.

As Maldivas são altamente dependentes do turismo, recebendo mais de 2 milhões de visitantes em 2025, de acordo com o seu ministério do Turismo, em comparação com uma população residente de 500 mil pessoas.

Conexão com a Itália

A Itália tem sido consistentemente classificada entre os maiores mercados turísticos das Maldivas. “A Itália tem uma relação muito especial conosco quando se trata de turismo e somos grandes amigos na nossa hospitalidade há muitos anos”, disse o porta-voz do governo das Maldivas.

“A população local está arrasada não apenas porque este é o maior acidente de mergulho de todos os tempos neste país, mas também porque são italianos.”

Os governos das Maldivas e italiano têm mantido comunicação “ao mais alto nível”, com Muizzu enviando as suas “mais profundas condolências” ao presidente italiano Sergio Mattarella e às famílias das vítimas, informou Shareef.

O enviado de Roma ao país chegou a Malé na sexta-feira (15) e juntou-se às equipes de resgate a bordo de um navio da guarda costeira, disse o Ministério das Relações Exteriores da Itália.

Fonte: cnnbrasil.com.br

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