Como começou a epidemia de ebola na África?
Cinquenta anos após ter surgido em comunidades rurais isoladas no coração da África Central, o vírus ebola volta a colocar o mundo em alerta máximo, mas agora em um cenário de expansão urbana e transfronteiriço.
Em um comunicado oficial divulgado pela OMS no último domingo (17), o diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde) determinou oficialmente que o atual surto da doença, causado pela variante Bundibugyo na RDC (República Democrática do Congo) e em Uganda, constitui uma ESPII (Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional).
O que motivou a classificação da OMS?
A decisão baseada no RSI (Regulamento Sanitário Internacional) 2005 foi motivada pelo alto risco de disseminação e pela confirmação de casos na capital ugandense, Kampala, indicando que a ameaça exige uma resposta global coordenada, embora ainda não configure uma emergência pandêmica.
Para compreender o impacto da atual crise, é fundamental contextualizar como o patógeno se manifestou pela primeira vez na história. Conforme explica a Dra. Sumire Sakabe, infectologista do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas:
“O ebola é um vírus ‘descoberto’ em 1976, durante um surto no Zaire, que atualmente é a República Democrática do Congo.”
Naquele primeiro contexto relatado em 1976, o vírus surgiu em comunidades rurais isoladas próximas ao Rio Ebola (que deu origem ao nome do patógeno), caracterizando-se desde o princípio como uma febre hemorrágica de altíssima letalidade.
Originalmente transmitido a humanos a partir do contato com animais silvestres infectados — como morcegos frutívoros e primatas —, o vírus se espalha entre pessoas pelo contato direto com sangue e fluidos corporais.
Cinco décadas após a sua descoberta, a dinâmica de transmissão mudou drasticamente, afastando-se do padrão original de isolamento rural. O surto atual, provocado pela cepa Bundibugyo, já se ramificou por zonas urbanas e semiurbanas e cruzou fronteiras internacionais.
Segundo a OMS, até o dia 16 de maio de 2026, a província de Ituri, na RDC, registrava oito casos confirmados em laboratório, 246 casos suspeitos e 80 óbitos em investigação. O contágio já atingiu Kampala, a densamente povoada capital de Uganda, onde dois pacientes vindos da RDC foram internados em unidades de terapia intensiva.
Essa evolução na dispersão geográfica e o comportamento do vírus dentro das cidades diferenciam a situação atual de surtos do passado.
A Dra. Sumire Sakabe pontua este novo panorama. “Ainda não se sabe o número real de pessoas afetadas na área geográfica acometida. Houve 4 óbitos entre profissionais de saúde, o que levou à necessidade de se investigar transmissão em serviços de saúde, mas há casos confirmados em áreas diversas, o que causa preocupação.”
Histórico do enfrentamento à doença e atuais desafios
Historicamente, o combate ao ebola avançou com o desenvolvimento de imunizantes para a variante Ebola-Zaire (responsável pela grande epidemia de 2018-2019). Contudo, o contexto atual é agravado pelo fato de que não existem vacinas ou terapias específicas aprovadas para a cepa Bundibugyo, deixando os sistemas de saúde locais desarmados contra a evolução biológica do vírus.
A persistência de crises humanitárias, a intensa mobilidade populacional nas fronteiras da RDC e a existência de redes informais de saúde criam o ambiente perfeito para a amplificação da doença.
Diante desses fatores que perpetuam o ciclo do vírus desde a sua origem, a Dra. Sumire Sakabe conclui sobre as barreiras contemporâneas. “Instabilidade social e deslocamento contínuo de pessoas agregam dificuldades extras no controle de doença altamente transmissível, de alta mortalidade, que demanda recursos humanos e insumos para controle de transmissão e tratamento de suporte para os pacientes acometidos.”
Com o decreto de emergência global, a OMS convocará em caráter de urgência o seu Comitê de Emergência para desenhar recomendações temporárias coordenadas.
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Fonte: cnnbrasil.com.br
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