Whey: como o suplemento virou solução ambiental e reduziu emissões de CO2

Uma pesquisa da Embrapa Gado de Leite, em parceria com a Sooro Renner Nutrição e a UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), obtida com exclusividade pelo CNN Agro, mostrou que a transformação do soro de leite em whey powder reduziu a pegada de carbono da cadeia láctea brasileira. O que antes era descartado como resíduo industrial, com alto impacto direto em rios e ecossistemas, virou insumo estratégico e, no processo, deixou de ser um passivo ambiental.

O soro de leite é subproduto direto da fabricação de queijos. Por ter altíssima carga orgânica, medida pela DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio), seu descarte inadequado em rios provoca queda rápida nos níveis de oxigênio da água, mata peixes e desequilibra ecossistemas inteiros. Além disso, como é rico em lactose e proteínas, cada litro jogado fora representa desperdício de água, energia e terra já consumidos na produção do leite.

A industrialização mudou esse quadro. Ao converter o soro em um ingrediente nobre, que está presente hoje desde suplementos esportivos até a indústria de panificação. Assim, o setor eliminou um passivo ambiental e ainda agregou valor econômico a um componente historicamente tratado como lixo.

“A transformação desse subproduto em soro em pó (whey, em inglês) não é apenas uma estratégia de lucro, mas uma necessidade de sustentabilidade operacional”, afirma Thierry Ribeiro Tomich, pesquisador da Embrapa Gado de Leite.

Para medir esse impacto com precisão, o estudo utilizou a ACV (Avaliação do Ciclo de Vida), metodologia que rastreia os impactos ambientais de um produto ao longo de toda a sua existência — do campo à saída da fábrica.

A técnica é conhecida como análise “do berço ao túmulo” porque examina desde a extração das matérias-primas até o descarte final, passando por transporte e processamento industrial.

É a primeira vez que essa abordagem é aplicada de forma integrada ao soro de leite no Brasil. Estudos anteriores analisavam os elos da cadeia de forma isolada. Desta vez, produção primária, transporte e processamento industrial foram avaliados juntos, o que permite identificar em qual etapa as emissões são maiores e onde as intervenções teriam maior efeito.

Segundo os pesquisadores, diminuir o impacto ambiental na etapa inicial proporciona uma redução muito maior no impacto final do produto do que qualquer alteração na embalagem ou na matriz energética da indústria, uma vez que são a menor parcela da cadeia. Com a metodologia, foi possível comprovar que cerca de 85% das emissões totais da produção de soro de leite em pó ocorrem no campo.

“Ao incluir os fluxos de transporte e as sucessivas transformações industriais, o projeto oferece um diagnóstico fiel do desempenho ambiental do setor. Assim é possível identificar onde estão os maiores gargalos de emissão de gases de efeito estufa”, afirma Tomich.

A pesquisa

A pesquisa foi dividida em duas etapas. Na primeira, foram mapeados os sistemas de produção de leite dos fornecedores da Sooro, com critérios de representatividade geográfica e tecnológica.

Na segunda, o foco foi o processamento industrial — com levantamento de dados reais sobre consumo de energia, água, insumos e emissões nos laticínios parceiros da empresa, referentes ao ano de 2023.

A analista da Embrapa Gado de Leite Vanessa Romário de Paula destaca o alcance da iniciativa. “A cadeia láctea brasileira acaba de dar um passo decisivo rumo à transparência ambiental e à eficiência produtiva”, afirma.

Os dados gerados estão disponibilizados gratuitamente na SICV Brasil, plataforma do IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia), para uso livre por pesquisadores, empresas e órgãos públicos.

“Essa iniciativa permite que outros pesquisadores, indústrias e órgãos governamentais utilizem dados reais da produção brasileira para outros projetos de ACV, facilitando tomadas de decisão”, diz Thiago Oliveira Rodrigues, pesquisador do IBICT.

A iniciativa também está alinhada a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, como o Compromisso Global de Metano, que prevê redução de 30% nas emissões do gás até 2030, e os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas).

A parceria entre Embrapa, Sooro e UTFPR ainda prevê a entrega de um plano de ação com medidas concretas para reduzir os GEE (Gases de Efeito Estufa) em cada etapa da cadeia láctea — o que deve ajudar o setor a cumprir exigências de mercados externos e responder a um consumidor cada vez mais atento à origem e ao impacto ambiental do que consome.

Fonte: cnnbrasil.com.br

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