Mão de obra qualificada “some” e vira risco estrutural na infraestrutura

A infraestrutura brasileira começa a viver um apagão de mão de obra qualificada em meio a investimentos recordes no setor, com riscos de transformar esse problema em um gargalo estrutural, segundo estudo do Sinicon (Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada) que compila uma série de indicadores sobre o tema.

O déficit de engenheiros no mercado é calculado atualmente em 75 mil profissionais pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) e tende a se agravar.

Estimativas do Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia) indicam que esse número pode chegar a 500 mil até 2030 e atingir 1 milhão de engenheiros ao longo da próxima década.

Dados levantados pelo estudo apontam que as matrículas em cursos de engenharia caíram aproximadamente 30% na última década, com redução de 1,2 milhão de novos alunos em 2015 para 887 mil em 2024, projetando dificuldades crescentes no preenchimento de vagas futuras.

Em termos internacionais, o Brasil forma de três a quatro engenheiros por 10 mil habitantes. Países como Alemanha, Japão e Estados Unidos têm cerca de 14 por cada grupo de 10 mil habitantes.

O cenário não parece promissor. De acordo com levantamento do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola), em parceria com o Instituto Locomotiva, apenas 12% dos estudantes de ensino médio pretendem cursar engenharia. E o Pisa, programa internacional de avaliação educacional, indicou em 2022 que aproximadamente 70% dos alunos brasileiros de 15 anos têm dificuldades em matemática.

Para o diretor-executivo do Sinicon, Humberto Rangel, a escassez de mão de obra não é apenas um obstáculo setorial, mas um entrave ao desenvolvimento do país.

Sem profissionais suficientes para atender a demanda, programas estratégicos de infraestrutura e habitação podem sofrer atrasos e aumento de custos.

“O Brasil corre o risco de investir em infraestrutura sem ter quem execute essas obras com a qualidade e a velocidade necessárias. Esse é um problema estrutural, que precisa ser enfrentado com senso de urgência e visão de longo prazo”, afirma Rangel.

Figuras raras no mercado

Esse cenário já se reflete no mercado de trabalho. A CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) mostrou recentemente que 90% das construtoras relatam dificuldades de preencher vagas abertas.

“Já começamos a enfrentar esse problema, desde 2025, em uma magnitude que ninguém esperava. Víamos crescer essa escassez de mão de obra, mas isso foi se acentuando. Até engenheiros estamos com dificuldade de encontrar”, disse recentemente o presidente da Comissão de Infraestrutura da CBIC, Carlos Eduardo Lima Jorge, no programa semanal Conexão Infra.

Segundo ele, em algumas funções, como a de laboratorista de pavimentos (que atua no controle de solos e de pavimentação de rodovias), o quadro é ainda mais dramático. “Tornou-se uma figura rara no mercado”, afirmou.

O Brasil vive um momento de investimentos recordes em infraestrutura, que somaram R$ 280 bilhões em 2025, segundo a Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base). De cada R$ 100 investidos, R$ 84 são da iniciativa privada.

Esse valor representa 2,3% do PIB e ultrapassa o recorde anterior, de 2014, antes da derrocada provocada pela Lava Jato e pela forte recessão econômica da década.

No entanto, para superar o déficit de infraestrutura, a Abdib calcula que seria necessário investir pelo menos 4,5% do PIB por dez anos.

Diante do apagão de mão de obra qualificada, o Sinicon defende cinco propostas:

  •  Formação e educação: revisão curricular, fortalecimento de atividades práticas, atração de mulheres para ampliar a base formadora de engenheiros e técnicos.
  • Qualificação profissional: programas de qualificação rápida, certificação por competências e capacitação continuada.
  • Atração de talentos: desmistificar a ideia de que só “gênios” podem se tornar engenheiros, campanhas de valorização, comunicação sobre propósito e impacto social da infraestrutura, trilhas de entrada mais claras para alunos do ensino médio.
  • Ambiente institucional: previsibilidade dos investimentos para formar e reter profissionais, com planejamento de longo prazo e percepção pelos jovens de que podem ter carreiras estáveis na engenharia.
  • Integração setor-academia: institucionalizar cooperação entre empresas, universidades, escolas técnicas e entidades profissionais, com programas de residência em engenharia, estágios supervisionados vinculados a obras reais, laboratórios compartilhados e trilhas de formação por competência.

Fonte: cnnbrasil.com.br

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