Agrolend aposta nos “vencedores” para manter inadimplência baixa
Em meio a um cenário contraditório no agronegócio brasileiro, com safra recorde de um lado e aumento das recuperações judiciais de outro, a fintech Agrolend tem conseguido expandir sua carteira mantendo níveis de inadimplência muito abaixo da média do setor.
A empresa, fundada em 2020, encerrou 2025 com uma carteira de crédito de R$ 968 milhões e projeta mais do que dobrar esse volume em 2026, chegando a R$ 2 bilhões. No período, registrou lucro líquido ajustado de R$ 32 milhões e patrimônio líquido de R$ 502 milhões, com alavancagem considerada conservadora de 1,9x.
O dado que mais chama atenção, porém, é a qualidade da carteira: a inadimplência acima de 90 dias ficou em 0,68%, bem abaixo da média de 12% do mercado, segundo o Banco Central.
Da ponta ao topo da cadeia
No início, a Agrolend operava financiando produtores rurais no momento da compra de insumos, como fertilizantes, sementes e defensivos.
Nesse modelo, o produtor comprava na revenda, que por sua vez adquiria produtos de grandes fornecedores. A fintech estruturava operações via CPR (Cédula de Produto Rural), repassava os recursos à revenda e o pagamento era feito após a colheita. A revenda assumia o risco em caso de inadimplência.
Com o tempo, a estrutura evoluiu. A empresa trouxe a indústria para dentro da operação, criando uma cadeia de garantias mais robusta: fornecedores passaram a avalizar revendas, que por sua vez avalizavam produtores.
Mais recentemente, a mudança foi ainda mais significativa: a empresa direcionou o foco para indústrias, cooperativas e grandes distribuidores, deixando em segundo plano o pequeno produtor.
Segundo os executivos, essa transição foi determinante para a queda da inadimplência.
A lógica por trás da inadimplência baixa
O movimento da Agrolend acompanha uma leitura específica do momento do agro brasileiro.
De acordo com André Glezer, o setor vive uma “dicotomia”: “Ao mesmo tempo, você tem área plantada crescendo, produção recorde histórica e setores como o etanol de milho voando. Por outro lado, há recuperações judiciais e inadimplência em níveis recordes.”
Na visão da empresa, isso reflete a estrutura altamente pulverizada do agro brasileiro. “Você tem empresas super capitalizadas, com baixo endividamento e alta eficiência. Tem uma camada intermediária equilibrada e uma cauda da cadeia que está mal”, afirma o executivo.
Estudos do setor mostram que cerca de 10% a 15% dos produtores não conseguem cobrir seus custos, o que ajuda a explicar o aumento das dificuldades financeiras.
A estratégia da Agrolend foi se posicionar justamente junto ao grupo mais eficiente. “A gente entendeu que o agro ia consolidar e começou a se desconectar da cadeia mais alavancada para trabalhar com os melhores clientes”, diz Glezer.
Ao financiar empresas mais diversificadas e menos dependentes de uma única safra ou região, o risco de crédito diminui.
Crescimento acelerado com tíquete maior
A mudança de perfil também elevou o tamanho médio das operações. Nos primeiros anos, o valor médio financiado girava entre R$ 400 mil e R$ 500 mil. Hoje, esse número está próximo de R$ 5 milhões por operação.
Esse aumento reflete o foco em empresas maiores e também amplia a escalabilidade do modelo de negócios. Além disso, clientes da Agrolend têm apresentado crescimento expressivo, em alguns casos, entre 30% e 40% ao ano, ao ocupar o espaço deixado por concorrentes que enfrentaram dificuldades financeiras.
Menos bancos, mais espaço para fintechs
Outro fator que favorece a expansão da Agrolend é a retração dos principais financiadores tradicionais do agro.
Segundo Alan Glezer, a demanda por crédito segue forte, mas a oferta diminuiu. “Os bancos cresceram muito no agro, mas agora estão com menos apetite. Ao mesmo tempo, o capital internacional ficou mais caro e as indústrias também ficaram mais cautelosas.”
Além disso, o mercado de capitais — com instrumentos como Fiagros e CRAs — também passou por um período de retração, reduzindo ainda mais a oferta de recursos.
O resultado é um desequilíbrio: enquanto a demanda segue aquecida, a oferta de crédito diminui, criando espaço para novos players.
Estrutura financeira e eficiência
A companhia encerrou 2025 com R$ 591 milhões em caixa e títulos livres e captação total de R$ 1,025 bilhão, distribuída entre LCAs, CDBs e depósitos interfinanceiros.
A gestão de ativos e passivos também é um dos pilares: o prazo médio da carteira é de cerca de 120 dias, enquanto os passivos têm prazo médio de 340 dias, garantindo folga de liquidez, segundo o executivo.
Além disso, a empresa mantém cobertura de provisões equivalente a 386% da inadimplência, reforçando a proteção da carteira. “Temos hoje uma estrutura de custos preparada para uma operação de escala significativamente maior”, afirma Alan Glezer.
Para 2026, a projeção é de expansão da carteira para R$ 2 bilhões e lucro estimado de cerca de R$ 70 milhões.
“Patrimônio é a última linha de defesa. Construímos capital antes de crescer a carteira”, diz André Glezer. “Vamos dobrar a carteira com a mesma estrutura de capital e os mesmos controles. Isso é escala com disciplina”, completam os executivos.
Papel das cooperativas e do crédito público
Apesar de ter reduzido a atuação direta com pequenos produtores, a Agrolend avalia que esse público continua atendido principalmente por cooperativas e pelo crédito subsidiado do Plano Safra.
Na visão da empresa, cooperativas têm vantagem competitiva por estarem mais próximas do produtor e operarem toda a cadeia.
Origem financeira, não agrícola
Os fundadores da Agrolend não vêm do agronegócio. Com formação em engenharia e carreira no mercado financeiro, identificaram no setor uma lacuna clara: a falta de crédito eficiente.
A partir dessa leitura, criaram a empresa com a proposta de atuar como um banco especializado no agro.
Para a Agrolend, o atual momento do agronegócio brasileiro não é apenas desafiador — é também uma oportunidade. A combinação de consolidação do setor, retração dos grandes financiadores e crescimento dos players mais eficientes cria um ambiente favorável para modelos de crédito mais seletivos.
Disputa societária encerrada
A empresa também enfrentou uma disputa societária recente envolvendo a ex-sócia Valéria. Segundo os executivos, o desligamento ocorreu há cerca de um ano, com aprovação da governança e dos investidores.
“O processo foi aprovado por todo o conselho e investidores. Houve uma disputa judicial, mas todos os processos já foram julgados e encerrados”, afirmam.
De acordo com a companhia, não há mais litígios em andamento, e a ex-sócia permanece apenas como acionista.
Fonte: cnnbrasil.com.br
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