Análise: Putin e Xi Jinping se reúnem para fortalecer laços
O presidente russo, Vladimir Putin, desembarcou em Pequim para uma nova rodada de reuniões com o líder chinês, Xi Jinping, poucos dias após a visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à capital chinesa. O encontro reforça a crescente aproximação entre Rússia e China e coloca Pequim no centro das atenções da geopolítica global.
Trata-se da 25ª visita de Putin à China ao longo de seus diferentes mandatos. Desde o início da guerra na Ucrânia, o comércio entre os dois países e o número de exercícios militares conjuntos cresceram significativamente, de acordo com dados do Instituto Mercator de Estudos sobre a China.
Antes da viagem, Putin divulgou uma mensagem elogiando as relações bilaterais, descrevendo a ligação entre os dois países como “sem precedentes”.
Energia e guerra na pauta do encontro
A cooperação nas áreas de energia, comércio e segurança está no centro da agenda do encontro. A China é o principal comprador do petróleo russo, algo que pode se expandir diante do conflito entre Estados Unidos e Irã.
Esse fluxo comercial ajuda a financiar o esforço de guerra de Putin na Ucrânia, com poucos ganhos territoriais recentes, um alto número de soldados mortos e ataques de drones ucranianos que chegam a atingir Moscou.
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna destacou que o grande pleito de Putin na visita é a construção do gasoduto “Poder da Sibéria 2”, capaz de transportar 50 bilhões de metros cúbicos de gás por ano. No entanto, as negociações esbarram em divergências de preço: a China quer comprar pelo valor subsidiado praticado internamente na Rússia, enquanto Putin pretende vender pelo preço de mercado.
“A China já compra 38 bilhões de metros cúbicos de gás por ano pelo ‘Poder da Sibéria 1′”, explicou Lourival, acrescentando que Pequim não demonstrou interesse em ampliar a compra de petróleo russo de forma expressiva, em parte porque conta com estoques suficientes para 93 dias de consumo.
China como novo centro gravitacional da política mundial
Para os analistas, a sequência de visitas de líderes mundiais a Pequim — incluindo Trump, Putin, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, e o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, — revela uma reconfiguração da ordem mundial.
“Xi é o lado para onde todos os outros estão indo”, afirmou Carlos Frederico Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Eceme, ao analisar o papel crescente da China como potência estabilizadora diante das incertezas geradas pelos Estados Unidos.
Lourival comparou o fenômeno ao antigo Império do Centro, “quando as nações tributárias iam lá fazer pedidos, apresentar os seus pleitos ao imperador”. Para ele, tanto Trump quanto Putin chegaram a Pequim com demandas que foram apenas parcialmente atendidas, o que evidencia a posição de força ocupada por Xi Jinping.
Segundo o jornal britânico Financial Times, Xi teria dito a Trump que Putin poderia se arrepender da invasão à Ucrânia — declaração que, segundo os analistas, também deve fazer parte das conversas entre Putin e Xi durante a visita.
Imprevisibilidade americana favorece Pequim
O contexto de imprevisibilidade da política externa americana também foi destacado no debate. Carlos Frederico Coelho lembrou que a China tem aproveitado as reuniões para se posicionar como uma alternativa “responsável e estável” diante das incertezas geradas por Washington.
“A gente está enxergando qual o preço de ter um líder absolutamente irresponsável e que não gera credibilidade naquilo que fala“, afirmou Carlos Frederico Coelho, ao comentar as declarações contraditórias de Trump sobre um possível ataque ao Irã.
Sobre a probabilidade de um ataque americano ao Irã, o professor avaliou como “pouquíssimo provável”, argumentando que todos os pontos negativos de uma ação militar já foram demonstrados e que há um cessar-fogo em curso que abre espaço para negociações.
Lourival, por sua vez, observou que Trump estaria cedendo discretamente a algumas exigências iranianas, mesmo mantendo um discurso de condições maximalistas em público.
Fonte: cnnbrasil.com.br
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