Ação para derrubar governo cubano traria sofrimento, alerta filha de Fidel
Assim como muitos outros cubanos na casa dos 70 anos, a primeira lembrança que Alina Fernández tem de Fidel Castro é de assistir aos seus intermináveis discursos na televisão.
“Minha geração costumava rezar em frente à TV para que ele terminasse, para que pudéssemos assistir aos nossos desenhos animados”, relembrou ela em entrevista à CNN na segunda-feira (18).
“Foi assim que eu cresci”, acrescentou.
No entanto, poucos outros membros de sua geração compartilham a segunda parte de sua lembrança, de quando Castro — que ela descobriu mais tarde ser seu pai — aparecia na casa da família à noite para visitar sua ex-amante, sua mãe.
Agora, a filha de Castro — uma anticomunista de longa data que vive exilada em Miami — teme que os EUA estejam subestimando o governo da ilha da qual fugiu, enquanto o governo Trump pressiona por uma mudança de regime em Cuba.
A ação militar dos EUA para derrubar o governo, alerta ela, traria enorme sofrimento.
“Esta não é a primeira vez que os cubanos são informados de que uma invasão está prestes a acontecer”, disse ela à CNN.
“Estamos sob invasão há 67 anos, ou em estado de invasão. Tenho certeza de que eles estão preparados. Não sei como vão reagir”, afirmou Fernández.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, alertou que qualquer ataque militar dos EUA a Cuba resultará em um “banho de sangue”. Fernández concorda.
“Sabemos que esses regimes colocam civis na linha de frente”, disse ela.
“Quando há uma situação que envolve violência militar ou política, por assim dizer, isso é muito preocupante. É esse o sentimento que tenho — que minha alegria não será correspondida pela forma como a solução for encontrada. Será muito doloroso”, acrescentou.
Fernández disse que descobriu “oficialmente” sua verdadeira paternidade aos 10 anos. No entanto, quando sua mãe lhe contou que o visitante frequente e noturno em sua casa em Havana era seu pai, “não foi uma grande surpresa”.
“Ele era um visitante assíduo”, lembrou ela.
O que surpreendeu Fernández foi que todos pareciam saber antes dela.
“Contei para minha melhor amiga, e ela me disse que já sabia”, disse Fernández.
“Então, junto com a notícia, veio uma sensação de traição — a sensação de ter sido enganada”, afirmou.
Ela disse que não entende o que sua mãe via em seu pai ausente, que ela acredita não gostar dela tanto quanto ela o amava. Os dois se conheceram durante a revolução na década de 1950 e começaram um caso.
Fernández nasceu em 1956, três anos antes de seu pai descer das montanhas da Sierra Maestra e derrubar o regime de Fulgencio Batista.
“Ela faleceu falando dele”, disse sobre sua mãe, que morreu em 2015, um ano antes da morte de Fidel Castro.
“Ela viveu apaixonadamente até o fim da vida, o que para mim é muito difícil de entender”, afirmou.
Sentada em sua pequena cozinha em Miami, Fernández insistiu que não se sente especial. Disse que nem sequer se sente realmente como filha de Fidel Castro. Pode parecer irônico, mas ela considera Miami, em meio ao ambiente anticastrista, o “único lugar confortável” que já conheceu. Ela mora em um pequeno apartamento duplex decorado com papel de parede colorido e arte popular chamativa.
“Me sinto como qualquer outro cubano”, disse Fernández.
“Como uma mulher, uma exilada, também uma vítima”, acrescentou.
Divergência de ideais
Fernández não compartilha das ideias políticas de seu falecido pai.

Ela disse que se desiludiu completamente com o governo cubano no final da década de 1980 e começou a criticar o regime publicamente. Ela fugiu do país em 1993, após concluir que talvez não fosse fácil para sua filha crescer sendo criada por um inimigo do Estado.
“Sempre vivi de acordo com a minha verdade”, disse ela.
“O momento em que tomei a decisão de deixar Cuba para tirar minha filha de lá foi porque percebi — alguém me alertou — que eu estava submetendo minha filha às mesmas coisas que me fizeram”, afirmou Fernández.
“Minha mãe, por ser muito revolucionária, e eu, por ser muito contrarrevolucionária”, pontuou.
“Há momentos em que você percebe as coisas quando criança e momentos em que não percebe”, recordou.
“Mas desde muito jovem eu conseguia ver que aquela glória e aqueles discursos não correspondiam à realidade”, acrescentou.
Raúl Castro na mira
Fernández tem acompanhado de perto a situação em Cuba desde que saiu do país. Ela acredita que a retórica mais belicosa do governo americano contra o governo cubano nos últimos tempos tem menos a ver com o presidente americano Donald Trump e mais com o secretário de Estado Marco Rubio, um cubano-americano.
“Acredito que isso se deve muito mais à presença de Marco Rubio no governo do que ao próprio presidente Donald Trump”, disse ela.
Ela também acha que a iminente acusação criminal contra seu tio, Raúl Castro, é uma cortina de fumaça para novas ações americanas contra o governo cubano, embora não se atreva a “especular” sobre como isso poderia se concretizar.

“Raúl Castro tem quase 95 anos […] Não vejo muita lógica no que está acontecendo, a não ser que isso faça parte da estratégia”, disse ela.
“No âmbito pessoal, Raúl Castro era completamente diferente do irmão […] Ele era uma pessoa de família”, lembrou ela.
Embora Trump tenha dito acreditar que Cuba cederá facilmente à pressão dos EUA, Fernández alerta para o perigo de subestimar o governo cubano ou sua capacidade de responder a ameaças.
“É muito difícil para as pessoas desistirem”, diz Fernández.
“É muito difícil para os países admitirem que perderam a guerra. … Acho que eles perderam esta guerra contra o imperialismo há muito tempo”, concluiu.
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Fonte: cnnbrasil.com.br
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