Análise: Crise na Bolívia pressiona Rodrigo Paz com protestos mais fortes

Desde que Rodrigo Paz chegou à presidência da Bolívia em novembro de 2025, seu governo nunca esteve tão abalado. Agora, marchas organizadas por trabalhadores, comunidades indígenas e grupos políticos já não pedem apenas mudanças, exigem a saída imediata. O que começou como reivindicações setoriais se transforma sob tensão crescente. As ruas falam com uma fúria diferente. O país observa com nervosismo suas instituições tremerem, justamente quando o dinheiro nos bancos oficiais quase desaparece. Soma-se a isso um mercado atingido por preços altos e pela falta de produtos nas lojas.

Há dias, em La Paz, o tráfego é paralisado por barricadas levantadas uma após outra. Por trás delas estão os camponeses da Federação Túpac Katari, com vinte frentes ativas em vias principais. A eles se uniram trabalhadores organizados sob a COB. Também avançaram grupos do movimento indígena conhecido como Ponchos Rojos. O que começou como pedidos de aumento salarial agora mira diretamente o presidente. Pouco a pouco, protestos separados se fundem sem anúncios formais. Já não falam de forma distinta, repetem o mesmo de diferentes lugares. O centro administrativo pulsa tenso, sem saber quando a pressão vai diminuir.

Após confrontos entre mineiros organizados e agentes policiais no centro de La Paz, a tensão aumentou e houve detonações com dinamite, segundo testemunhas. Enquanto isso, pessoas próximas ao ex-presidente Evo Morales realizaram uma longa marcha de quase duzentos quilômetros rumo à capital, o que complica ainda mais o cenário governamental. Autoridades afirmam que Morales busca provocar caos para ganhar espaço político, no entanto especialistas veem esses eventos como parte de uma fratura social mais profunda e não como um plano coordenado.

Impulsionado por causas estruturais, o descontentamento cresce sem pausa. Professores e seus sindicatos pedem mais recursos, afirmando que o aumento anterior, de vinte por cento, foi consumido pela inflação. Motoristas reclamam porque o combustível rende menos e chega de forma irregular. Grupos indígenas continuam elevando a voz contra mudanças nas terras da Amazônia, temendo perder o controle sobre seus territórios. Ao bloquear estradas, os protestos paralisaram fábricas e negócios, e a cada dia a indústria perde cerca de sessenta milhões de dólares, aprofundando uma economia já enfraquecida.

O que marca a diferença é a desaceleração do setor de petróleo e gás na Bolívia. Como observa Iver von Borries, da Câmara Boliviana de Hidrocarbonetos e Energia, o país já não tem o mesmo peso no mapa regional, pois os investimentos foram interrompidos e as regras mudam sem aviso. Isso também afeta outros países, por exemplo o Brasil há anos depende desse gás para atender necessidades internas. Com a queda na extração, surge um problema, manter os acordos comerciais parece cada vez mais difícil. Por isso, em vários países vizinhos, começa-se a buscar outras fontes para evitar riscos caso algo volte a falhar.

Apesar dos esforços do governo de Rodrigo Paz para acalmar a situação por meio de diálogos seletivos, sua abordagem cada vez mais rígida na área de segurança teve efeitos diferentes do esperado. Em vez de apaziguar, as detenções de figuras ligadas aos protestos sob acusações como colaboração com cartéis intensificaram o descontentamento. Assim, o que deveria ser controle acabou ampliando as manifestações para novos grupos. A resposta oficial, em vez de fechar fissuras, parece ampliá-las ainda mais. Com isso, as demandas se multiplicam onde antes havia silêncio.

A saída do presidente Rodrigo Paz desencadearia uma série de etapas legais na Bolívia para garantir a continuidade do poder. Com a presidência vacante, quem assumiria seria Edmand Lara, atual vice-presidente. Se ele também não pudesse assumir, seguiriam figuras-chave do Parlamento, conforme previsto na Constituição. Poderia então se abrir um breve período sob liderança temporária enquanto se organizam eleições antecipadas.

Um detalhe interno decisivo está no centro da situação. Desde o início do governo, as diferenças entre o vice-presidente Edmand Lara e o presidente cresceram continuamente. Aos poucos, essa tensão desfez o que antes parecia um frente comum. Agora, com protestos espalhados, esse distanciamento atinge a unidade do Executivo. Como resultado, tomar decisões rápidas torna-se mais difícil justamente quando mais se exige coordenação. A divisão interna limita opções em meio a uma crise visível.

Assim, uma possível mudança não dependeria apenas do descontentamento público, mas também de fissuras entre os líderes, o que poderia acelerar a instabilidade e dificultar o funcionamento normal do Estado.

*Martín Morales é sócio-diretor da Arko USA. 

Análise Arko: Investigação sobre verba a filme ameaça candidatura de Flávio

Fonte: cnnbrasil.com.br

Publicar comentário