Análise: Negociações entre EUA e Irã seguem sob desconfiança
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na segunda-feira (18) o adiamento de um ataque militar dos Estados Unidos contra o Irã, previsto para ocorrer na terça-feira (19). Segundo Trump, a decisão foi tomada a pedido de líderes da Arábia Saudita, do Catar e dos Emirados Árabes Unidos, que acreditam que negociações sérias com Teerã estão em curso.
Apesar do adiamento, Trump reafirmou que instruiu o comando militar a permanecer preparado para realizar um ataque de grande escala contra o Irã a qualquer momento, a depender do rumo das tratativas diplomáticas. O anúncio veio após os EUA receberem, no domingo (17), mais uma proposta iraniana para encerrar o conflito em curso no Oriente Médio.
Impasse nas negociações
O principal obstáculo ao avanço das negociações reside nas chamadas “linhas vermelhas” de cada lado. O Irã propõe o desbloqueio do Estreito de Ormuz em uma primeira fase, deixando as discussões sobre seu programa nuclear para uma etapa posterior.
Já os Estados Unidos exigem que o Irã entregue imediatamente todo o material nuclear enriquecido a níveis próximos à confecção de ogivas nucleares. Nenhum dos lados demonstra disposição para ceder nesses pontos fundamentais.
Em meio ao impasse, o Irã ativou sistemas de defesa aérea em localidades estratégicas, incluindo Isfahan, onde há um complexo de pesquisa nuclear, e Qeshm, uma ilha próxima ao Estreito de Ormuz. Segundo analistas, os iranianos perceberam que a guerra foi ganha geograficamente, ao controlar Ormuz e pressionar o fornecimento global de petróleo.
O professor de Relações Internacionais e diretor do Instituto de Ciências Sociais da PUC-Minas Danny Zahreddine avaliou que os recuos sucessivos de Trump revelam uma dificuldade estratégica e política profunda. “A reputação nas relações internacionais representa quase tudo. Os recuos constantes revelam o problema em que os Estados Unidos se meteram do ponto de vista estratégico e político”, afirmou.
Para ele, a estratégia iraniana é deliberadamente a de prolongar o tempo e criar frustração, pois “quanto mais o tempo passa, mais improvável fica essa guerra continuar acontecendo”.
Análise de Lourival Sant’Anna
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna chamou atenção para o peso político doméstico sobre Trump. Uma pesquisa do Instituto Siena para o The New York Times indica que 64% dos americanos consideram que a guerra foi uma decisão errada, contra apenas 30% que a aprovam.
Entre os eleitores independentes, a rejeição chega a 73%, e mesmo entre os republicanos, 22% avaliam negativamente a decisão. A isso se soma uma inflação de 3,8% nos últimos 12 meses, ante 2,4% antes do início do conflito.
Sant’Anna ainda destacou que o ambiente político em torno de Trump mudou radicalmente em relação a Israel. Parte dos principais apoiadores de Trump, nas franjas da própria direita, passou a ver Israel como responsável por decisões equivocadas que arrastaram os Estados Unidos para o conflito.
“Esse amálgama está se desmontando dentro do MAGA”, comentou Lourival, referindo-se à percepção de que Trump teria sido levado à guerra por uma promessa de vitória fácil que não se concretizou.
Perspectivas para um acordo
Segundo Sant’Anna, há sinais de que Washington estaria adotando uma postura mais flexível nas negociações, aceitando liberar uma parte dos ativos bancários bloqueados do Irã e cogitando permitir que o país retome um programa nuclear de caráter pacífico.
A possibilidade de suspender sanções durante as negociações também foi ventilada, embora negada por uma fonte americana. “Trump está, sim, cedendo ao Irã de forma discreta e tentando chegar a um acordo”, concluiu Sant’Anna.
Fonte: cnnbrasil.com.br
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