Análise: Trump volta da China sem avanço sobre Irã e com decisão a tomar

À medida que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demonstrava crescente frustração com os esforços diplomáticos para encerrar a guerra com o Irã, integrantes do governo americano acompanhavam de perto se a viagem dele à China — um país com laços estreitos com o regime iraniano — resultaria em um avanço significativo.

Mas Trump desembarcou nos Estados Unidos na sexta-feira (15) aparentemente sem nenhum progresso a relatar.

Em declarações à imprensa durante sua viagem de volta a Washington, o presidente dos EUA afirmou que o líder chinês, Xi Jinping, disse que gostaria da reabertura do Estreito de Ormuz e que concorda que o Irã não deve desenvolver armas nucleares. Mas essas declarações já haviam sido feitas pela China anteriormente.

“Ele gostaria de ver isso terminar. Ele gostaria de ajudar. Se ele quer ajudar, ótimo. Mas nós não precisamos de ajuda”, afirmou Trump a Bret Baier, da Fox News, em uma entrevista que foi ao ar na sexta.

Diversos funcionários do governo americano destacaram que queriam observar o desenrolar das negociações entre Trump e Xi antes de definir um caminho a seguir em relação ao Irã.

Mas agora o presidente precisa decidir se lançar mais ataques contra o Irã é a melhor opção para encerrar um conflito que se arrasta há muito mais tempo do que as seis semanas inicialmente previstas, elevando os preços da gasolina e derrubando seus índices de aprovação em relação à economia.

Em uma publicação na Truth Social feita na manhã de sexta-feira, horário da China, Trump afirmou que a campanha militar contra o Irã “continuará”.

Opiniões divergentes sobre próximos passos na guerra

Há opiniões divergentes dentro do governo sobre como proceder, disseram fontes familiarizadas com as negociações.

Alguns, incluindo funcionários do Pentágono, defendem uma abordagem mais agressiva — incluindo ataques direcionados — na esperança de pressionar ainda mais o Irã a ceder.

Outros, no entanto, defendem a continuidade do foco na diplomacia. O próprio Trump tem se inclinado para essa abordagem nas últimas semanas, na esperança de que a combinação de negociações diretas e pressão econômica convença o Irã a fechar um acordo.

Mas o Irã não cedeu muito em suas propostas de acordo desde que os EUA anunciaram o cessar-fogo em abril.

“Bem, eu dei uma olhada e, se eu não gostar da primeira frase, simplesmente a descarto”, disse Trump a repórteres a bordo do Air Force One na sexta-feira, referindo-se à mais recente proposta iraniana.

O vice-presidente JD Vance demonstrou confiança no início desta semana, dizendo a repórteres que havia “passado um bom tempo ao telefone com Jared Kushner e Steve Witkoff esta manhã, e com vários de nossos amigos no mundo árabe”, referindo-se aos principais diplomatas encarregados de chegar a um acordo com Teerã.

“Olha, acho que estamos progredindo. A questão fundamental é: estamos progredindo o suficiente para satisfazer a linha vermelha do presidente?”, destacou Vance.

“O presidente nos colocou, por ora, no caminho diplomático, e é nisso que estou focado”, acrescentou.

Trump impaciente com o Irã

De toda forma, Trump tem se mostrado cada vez mais impaciente com o fato de o Irã não demonstrar qualquer disposição para abandonar sua postura intransigente.

Ele está particularmente irritado com o fechamento do Estreito de Ormuz — que fez os preços do petróleo e do gás dispararem — bem como com as divisões percebidas na liderança iraniana, que complicaram ainda mais as negociações, disseram as fontes.

A resposta mais recente do Irã à proposta dos EUA e sua retórica nos últimos dias levaram muitos funcionários a questionar o compromisso de Teerã com um acordo sério.

“O presidente Trump tem todas as opções à sua disposição. No entanto, sua preferência é sempre a diplomacia”, disse a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, à CNN em um comunicado.

“Os Estados Unidos têm a máxima influência sobre o regime, e o presidente só aceitará um acordo que proteja a segurança nacional do nosso país”, adicionou.

“Ele tentou usar a retórica agressiva, mas não funcionou. Tentou negociar, mas também não funcionou”, disse Ivo Daalder, ex-embaixador dos EUA na Otan, a aliança militar ocidental.

“Ele está tentando encontrar uma maneira de sair desse impasse”, concluiu.

Urgência por saída da guerra

Há uma crescente urgência no círculo de Trump para encontrar uma saída para o conflito, à medida que as eleições de meio de mandato se aproximam.

A guerra afetou significativamente a popularidade do presidente dos EUA, já que os eleitores sentem o aperto econômico, e os republicanos temem sofrer as consequências em novembro.

Os preços da gasolina no país ultrapassaram US$ 4,50 por galão, em média, e provavelmente subirão ainda mais, visto que o Irã mantém o controle sobre o estreito, uma importante rota petrolífera.

A inflação está aumentando em um ritmo preocupante, superando os ganhos salariais dos americanos em abril pela primeira vez em três anos.

E, embora o mercado de ações em geral esteja mantendo seus ganhos, os líderes corporativos têm se tornado mais insistentes nos bastidores, pressionando Trump e seus assessores a encontrarem uma solução.

“Eles só querem que a guerra acabe”, disse um assessor de Trump que conversou recentemente com executivos de Wall Street, e que caracterizou a mensagem geral como “simplesmente apressem o processo”.

Trump frequentemente minimizou o impacto da guerra nos Estados Unidos, insistindo que esperava que as condições fossem muito piores do que são. Ele descartou as preocupações econômicas no início desta semana — e depois reiterou sua posição.

“Não penso na situação financeira dos americanos. Não penso em ninguém. Penso em uma coisa: não podemos deixar o Irã ter uma arma nuclear. Só isso. É a única coisa que me motiva”, afirmou ele a repórteres no início desta semana, quando questionado sobre o quanto as preocupações econômicas dos americanos estavam por trás de sua busca por um acordo de paz.

Pressionado sobre essa declaração, Trump disse a Baier, da Fox News: “Essa é uma declaração perfeita. Eu a faria novamente”.

Ainda assim, o presidente e sua equipe estão bem cientes de sua situação — conciliando a busca por uma vitória no Irã com um prazo político extremamente curto.

“Quando estou dirigindo e vejo a gasolina a 5 dólares, isso me assusta demais”, reconheceu o assessor de Trump.

“Eles estão tentando encontrar uma solução, mas isso não vai durar muito mais. De um jeito ou de outro, eles vão abrir o estreito — eles precisam abri-lo”, concluiu.

Fonte: cnnbrasil.com.br

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