Cérebro de moscas inspira sistemas de IA e robótica mais eficientes
Durante movimentos rápidos dos olhos — conhecidos como “sacadas” —, nossa visão sofre um problema físico: como a imagem no campo visual se move rápido demais, isso gera um borrão de movimento. Aplicando essa lógica às moscas, os cientistas acreditavam que elas “paravam de enxergar” por um instante quando faziam movimentos muito rápidos no ar.
À primeira vista, isso faz sentido, já que, ao contrário dos humanos, as moscas não movem os olhos dentro das órbitas, mas sim o corpo inteiro para mudar de direção. Ainda assim, ambos enfrentam o mesmo desafio: lidar com imagens que se deslocam rápido demais.
Recentemente, um estudo publicado na revista Nature Communications revisou esse consenso. Pesquisadores da University of Sheffield, na Inglaterra, mostraram que moscas-domésticas e moscas-das-frutas não processam a informação visual de forma passiva, como se pensava.
Diferentemente dos humanos, em que parte da informação visual tende a ser temporariamente ignorada pelo cérebro, esses insetos não podem “desligar” a visão, pois seria perigoso em voo. Por isso, evoluíram um sistema que continua processando informações visuais durante o movimento e ajusta dinamicamente a sensibilidade visual.
Batizado como “salto sináptico de alta frequência”, esse movimento permite que moscas enxerguem com nitidez mesmo em pleno voo. O princípio pode inspirar sensores artificiais mais ágeis e eficientes, alimentando sistemas de IA aplicados à robótica e aos veículos autônomos.
O que é o salto sináptico que acelera a visão das moscas?

Para investigar esse desempenho visual, pesquisadores analisaram como os sinais percorrem os olhos multifacetados das moscas até seus neurônios internos. As medições revelaram taxas de transmissão muito superiores às estimativas anteriores, indicando um sistema visual altamente eficiente.
Os neurônios visuais — chamados de células monopolares grandes — atingiram taxas recordes: cerca de 4,1 mil bits por segundo na transmissão sináptica. O destaque não está no volume bruto, mas sim na eficiência: a mosca consegue processar sinais relevantes quase sem atraso, mesmo em movimento.
A partir dessas medições, os autores identificaram um mecanismo inédito, que chamaram de salto sináptico de alta frequência, no qual as sinapses ajustam dinamicamente a transmissão durante movimentos rápidos. O processo amplia a capacidade visual para cerca de 1 mil Hz, ou mil pulsos por segundo, o que equivale a uma visão em câmera lenta.
Na prática, isso permite que as moscas distingam eventos separados por frações de milissegundo e reajam antes mesmo de o processamento se completar. O modelo pode inspirar sistemas de inteligência artificial e robótica mais rápidos, capazes de antecipar mudanças e operar com maior eficiência, propõem os autores.
Inspirando tecnologias do futuro

Quando o estudo fala em “inspirar” IA e robótica, o que está em jogo é copiar princípios de processamento, não a anatomia. Isso significa: em vez de analisar tudo o tempo todo, processar mais quando há mudança rápida, em um sistema com foco em eventos, não em frames completos.
Ou seja, a ideia é aumentar a resolução quando necessário e economizar energia no resto do tempo, algo que pode ser obtido com câmeras inteligentes e sensores adaptativos. No cérebro das moscas, a baixa latência (quase nenhum atraso entre estímulo e resposta) decorre da redução do tempo entre captar, processar e agir.
Essas descobertas desafiam um pressuposto central da neurociência: o de que a informação flui pelo cérebro por caminhos fixos, com atrasos inevitáveis. No novo modelo, a visão é um esforço coletivo entre movimento, percepção e resposta neural — e o cérebro não processa o mundo apesar do movimento, mas graças a ele.
Para o coautor do estudo, professor Aurel Lazar, da Columbia University, “a inteligência não vem de processar mais dados, mas de processar os dados certos na hora certa”. Em termos simples, o princípio — que pode definir o futuro da IA e da robótica — já é dominado pelas moscas domésticas há milhões de anos.
Brasil está entre os países que mais usam inteligência artificial
Fonte: cnnbrasil.com.br
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