Em uma caverna próxima a Arar, no norte da Arábia Saudita, pesquisadores localizaram exemplares íntegros de guepardos mumificados de forma natural, e a comunidade científica segue impressionada com a preservação “impossível” desses mamíferos em tal ambiente

Uma equipe de pesquisadores fez uma descoberta notável em uma caverna próxima à cidade de Arar, na Arábia Saudita, onde encontrou corpos naturalmente mumificados de sete guepardos preservados de forma extraordinária, com pele, membros e até partes do cérebro intactos, desafiando tudo o que os cientistas conheciam sobre preservação de mamíferos grandes em ambientes desérticos.

Cientistas descobriram corpos de guepardos naturalmente mumificados com tecidos intactos em cavernas subterrâneas na Arábia Saudita.
Cientistas descobriram corpos de guepardos naturalmente mumificados com tecidos intactos em cavernas subterrâneas na Arábia Saudita.Imagem gerada por inteligência artificial

Como foi realizada a expedição arqueológica na caverna de Arar?

Entre 2022 e 2023, uma equipe do Centro Nacional de Vida Selvagem explorou 134 cavernas subterrâneas espalhadas por aproximadamente 1.200 quilômetros quadrados de deserto próximo a Arar. Os pesquisadores descobriram restos de guepardos em cinco das cavernas estudadas, sendo que em uma delas encontraram a maioria das sete múmias naturais acompanhadas por dezenas de esqueletos adicionais, alguns situados apenas a poucos metros da entrada.

Os corpos mumificados exibem uma aparência surpreendentemente bem conservada para sua idade, apresentando pele ressecada esticada sobre as costelas, patas encolhidas em direção ao corpo e olhos opacos que ainda emanam um aspecto impressionante. Especialistas internacionais, incluindo o paleontólogo Joan Madurell-Malapeira da Universidade de Florença, descreveram o achado como algo nunca visto antes entre grandes carnívoros estudados cientificamente.

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    Escala da expedição: Mais de 1.200 quilômetros quadrados mapeados em cavernas subterrâneas da região desértica
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    Quantidade de múmias: Sete corpos completamente preservados encontrados junto com restos de 54 animais adicionais

  • Período temporal: Os restos variam de aproximadamente 130 anos até quase 2 mil anos de idade

Qual é o mecanismo natural que preservou esses animais?

Quando um animal morre, bactérias e insetos normalmente decompõem os tecidos moles em poucos dias, especialmente em climas quentes. Nas cavernas de Arar, as temperaturas constantemente frias e o ar extremamente seco desaceleraram esse processo de forma significativa, permitindo que pele, tendões e até órgãos internos ressecassem completamente em vez de apodrecer.

O microclima seco e frio das cavernas de Arar permitiu a preservação extraordinária de pele e órgãos internos por até dois mil anos.
O microclima seco e frio das cavernas de Arar permitiu a preservação extraordinária de pele e órgãos internos por até dois mil anos.Imagem gerada por inteligência artificial

Para que animais tão grandes permanecessem intactos, era necessário escapar de predadores como hienas, abutres e raposas que normalmente limpam carcaças na superfície. O autor do estudo Ahmed Boug observou em comunicado que encontrar guepardos nessa condição é completamente sem precedentes naquela região do mundo, tornando este sítio quase único na ciência moderna.

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Comparações com casos raros de mumificação natural

Exemplos históricos de preservação

A mumificação natural em cavernas tem sido registrada apenas em alguns outros carnívoros, como um único tigre-da-Tasmânia extinto, tornando o sítio dos guepardos praticamente único na pesquisa científica contemporânea e abrindo novas possibilidades de compreensão sobre preservação de mamíferos.

As condições específicas de temperatura, umidade e isolamento das cavernas de Arar criaram um microambiente praticamente perfeito para a preservação de tecidos moles, um fenômeno raro que desafia compreensões anteriores sobre decomposição em climas áridos.

O isolamento das cavernas protegeu essas carcaças de perturbação por predadores e carniceiros, permitindo que permanecessem relativamente intocadas durante séculos. A combinação de fatores ambientais únicos nas cavernas de Arar criou condições praticamente ideais para a preservação extraordinária desses animais antigos.

  • Temperaturas constantemente frias dentro das cavernas subterrâneas
  • Ar extremamente seco que promove ressecação rápida de tecidos
  • Isolamento geográfico que protege contra predadores e carniceiros
  • Ausência de umidade que normalmente causa decomposição bacteriana

O que o material genético revelou sobre as espécies antigas?

Como os corpos estão extraordinariamente bem preservados, pesquisadores conseguiram extrair material genético tanto das múmias quanto dos ossos, algo nunca realizado antes em grandes felinos naturalmente mumificados. A equipe sequenciou genomas completos para três indivíduos diferentes e comparou os dados com populações de guepardos atuais espalhadas pela África e Ásia para determinar suas posições na árvore evolutiva.

Uma das sete chitas mumificadas encontradas em cavernas na Arábia Saudita.
Uma das sete chitas mumificadas encontradas em cavernas na Arábia Saudita. – Créditos: Ahmed Boug et al./ Communications Earth & Environment

Os guepardos mais antigos encontrados nas cavernas apresentavam relação mais próxima com espécies que vivem atualmente no noroeste africano, enquanto a múmia mais jovem se agrupava com o criticamente ameaçado guepardo asiático que sobrevive apenas no Irã. Essa descoberta genética revolucionou a compreensão sobre distribuição de espécies e abriu novas possibilidades para programas de reintrodução.

  • Sequenciamento completo de genomas de três indivíduos mumificados
  • Identificação de duas subspecies diferentes coexistindo na Península Arábica
  • Comparação genética com populações modernas de guepardos africanos e asiáticos
  • Estabelecimento de filiação genética com guepardos do noroeste africano e iranianos

Como essa descoberta pode beneficiar os programas de conservação de guepardos?

Os guepardos historicamente ocupavam a maioria dos territórios africanos e grandes extensões da Ásia ocidental e meridional, incluindo a Península Arábica, mas agora desapareceram de aproximadamente 90% desse território original. Apenas alguns milhares permanecem na natureza selvagem, concentrados principalmente no sul e leste da África, junto a uma pequena população asiática isolada no Irã.

Para os planejadores de conservação, essa redução vertiginosa significa que cada informação histórica confiável se torna extremamente valiosa. As cavernas de Arar fornecem aos oficiais sauditas um guia raro e concreto sobre quais subspecies viveram ali anteriormente e por quanto tempo persistiram, apoiando programas de reintrodução que combinam reprodução em cativeiro com restauração de habitats naturais.

Referências: Mummified cave cheetahs inform rewilding actions in Saudi Arabia | Communications Earth & Environment

Fonte: catracalivre.com.br

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