Qual o papel de Taiwan na relação entre EUA e China?

O papel de Taiwan nas relações entre os Estados Unidos e a China voltou ao centro do debate internacional após reuniões entre Donald Trump e Xi Jinping.

O chanceler taiwanês afirmou que a ilha acompanhou de perto os encontros e que está “mantendo uma boa comunicação” com o lado americano, buscando aprofundar seus laços com Washington.

Durante sua viagem de retorno, Trump adotou uma postura ambígua sobre a defesa de Taiwan. Questionado diretamente se defenderia a ilha, o líder americano afirmou não saber, acrescentando que “a única pessoa que poderia dizer isso é ele mesmo”.

Segundo relatos, Xi Jinping teria feito a mesma pergunta pessoalmente a Trump durante os encontros, mas também não obteve resposta.

A importância estratégica de Taiwan

O professor de Relações Internacionais da UFF (Universidade Federal Fluminense) e pesquisador de Harvard, Vitelio Brustolin, destacou que Taiwan faz parte da chamada primeira cadeia de ilhas de contenção da China, estratégia adotada pelos Estados Unidos desde 1945.

Segundo Brustolin, autores clássicos da geopolítica, como Mahan, Mackinder e Spikeman, já teorizavam sobre o controle de pontos estratégicos — como estreitos e áreas costeiras — para a projeção de poder global. “Abrir mão dessa estratégia seria jogar fora 80 anos de estratégia dos Estados Unidos”, afirmou.

O Estreito de Taiwan também foi tema de debate. De acordo com dados da Bloomberg mencionados na discussão, o estreito é responsável por metade da passagem de contêineres do mundo.

Trump, no entanto, minimizou sua importância. Outro ponto destacado foi o papel da empresa taiwanesa TSMC, responsável por 90% da fabricação dos chips mais avançados do mundo — o que confere à ilha um peso econômico e tecnológico considerável nas disputas geopolíticas.

Risco de conflito e estratégia chinesa

O analista de internacional sênior da CNN Brasil, Américo Martins, avaliou que, embora um cenário de terceira guerra mundial seja improvável no curto prazo, as situações podem sair do controle. Ele ressaltou que Japão e Coreia do Sul provavelmente só interviriam em defesa de Taiwan se os Estados Unidos se posicionassem primeiro.

Além disso, Américo ponderou que a China não necessariamente optaria por uma invasão militar direta.

“Eles podem tentar fazer vários outros tipos de pressão sobre Taiwan para tentar controlar a ilha”, disse, citando exercícios militares, pressão econômica e conexões políticas dentro da própria ilha como instrumentos já em uso por Pequim.

O analista também destacou que Xi Jinping reiterou durante os encontros a palavra “estabilidade” como eixo central de sua postura — tanto em relação a Taiwan quanto na relação bilateral com os Estados Unidos.

“Está fazendo o tradicional jogo chinês de longuíssimo prazo”, afirmou, contrastando a visão estratégica de Pequim com o estilo mais imediatista de Trump.

Na avaliação dos participantes do debate, o tom das conversas indicou que Xi Jinping conduziu as discussões com maior controle, enquanto Trump sinalizou uma posição mais fragilizada, envolvido simultaneamente em outros dois grandes conflitos internacionais.

Postura de Trump gera dúvidas

A possibilidade de Trump não vender os 14 bilhões de dólares em armas previamente previstos para Taiwan também foi mencionada como um sinal de recuo em relação à ilha.

Américo observou que Trump tende a apresentar essa indefinição como uma estratégia de “manter as cartas na manga”, mas avaliou que, na prática, o presidente americano reconhece estar em terreno delicado.

A comparação com a postura adotada em relação à Europa — de distanciamento de uma estratégia considerada mutuamente benéfica por décadas — foi apontada como um padrão que pode se repetir no caso de Taiwan.

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Fonte: cnnbrasil.com.br

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